Cotta Club

A minha fotografia
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Localização: Algarve, Portugal

Amateur photographer

26 dezembro 2005

Natal

Como foi? Foi bom? Como se o Natal fosse. O Natal não é. O Natal acontece. O melhor é não falar nisso, senão escrevia coisas e loisas, que é como quem diz. Mas se o teu Natal foi bom, ainda bem.


Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?

Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.



Eugénio de Andrade

28 novembro 2005

Utopia




Utopia é algo inatingível! Ponto!
Partir à procura de encontrar o local onde o arco íris toca no chão é como perseguir uma utopia.
Quando alguém mais inteligente resolver avisar-nos do nosso erro já vamos muito longe, enquanto o inteligente fica parado no mesmo sítio:)

23 novembro 2005

Os camelos também choram

Eu tinha lido que, lá na Índia, elefantes olhando o crepúsculo, às vezes, choram. Mas agora está aí esse filme «Camelos também choram». A gente sabe que porcos e cabritos, quando estão sendo mortos, soltam gemidos e berros dilacerantes. Mas quem mata galinha, no interior, nunca relatou ter visto lágrimas nos olhos delas.

Contudo, esse filme sobre uma comunidade de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia, mostra que os camelos choram, mas choram não diante da morte, mas em certa circunstância que faria chorar qualquer ser humano. E, na plateia, eu vi, os não camelos também choravam.

Para nós, tão afastados da natureza, olhando a dureza do asfalto e a indiferença dos muros e vitrinas; para nós que perdemos o diálogo com plantas e animais, e, por consequência, connosco mesmos, testemunhar, com aquela bela família de mongóis, o nascimento de um filhote de camelo e sua relação com a mãe é uma forma de reencontrar a nossa própria e destroçada Humanidade.

É isto: eles vivem num deserto. Terra árida, pedregosa. Eles, dentro daquelas casas redondas de lona e madeira, que podem ser montadas e desmontadas. Lá fora, um vento permanente ou o assombro do silêncio e da escuridão. E as ovelhas e carneiros ali em torno, pontuando a paisagem e sendo a fonte de vida dos humanos.

Sucede, então, que a rotina é quebrada com o parto difícil de um camelinho.

Por isto, a mãe camela o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas e indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado geme e segue inutilmente a mãe na seca paisagem. A família mongol e vizinhos tentam forçar a mãe camela a alimentar o filho.

Em vão!... «Só há uma solução», diz alguém da família: mandar chamar o músico! Ao ouvir isto, estremeci como se me preparasse para testemunhar um milagre. E o milagre começou musicalmente a acontecer.

Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão a uma vila próxima chamar o músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos, televisão, e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam instrumentos e dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras.

O professor de música, como se fosse um médico de aldeia chamado para uma emergência, viaja com seu instrumento de arco e cordas para tentar resolver a questão da rejeição materna. Chega.

E, ali no descampado, primeiro coloca o instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do instrumento.

A natureza por si mesma harpeja sua harmónica sabedoria. A camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando suavemente os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos, e esperam.

A seguir, o músico retoma seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a dona da camela afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam, a mãe camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas tetas.

E o filhote antes rejeitado e infeliz, vem e mama, mama, mama desesperadamente feliz!... E enquanto ele mama e a música continua, a câmara mostra em primeiro plano que lágrimas desbordam umas após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afecto reuniu num todo amoroso os apartados elementos.

Nós, humanos, na plateia, olhamos aquilo estarrecidos. Maravilhados! Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar sabedoria.

E nós que perdemos o contacto com o micro e o macrocosmos ficamos bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais.
Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de instrumentos que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria e saravam até a mania de perseguição.

Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no universo com o primeiro som audível -um Ré bemol e que a palavra só surgiria mais tarde.

Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam que o universo era uma partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de um tom e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.
Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também. Mas nós, os pós-modernos cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.

Haja professor de música para consertar esta pobre Pátria e os caciques locais que utilizam as verbas do erário público em despesismo criminoso, Câmaras no limite do endividamento perante a banca e, mesmo assim, banqueteiam-se alarvemente e em poses de cátedra por onde distribuem sorrisos numa autêntica «feira de vaidades»!...

*secretária de administração

17 de Novembro de 2005 | 14:29
Monika Bizmark*

in "Barlavento"

15 novembro 2005

O Espelho e a Máscara

Há algumas pérolas na internet, não são apenas os bytes e megabytes que a habitam. E quando se descobre uma delas, há que partilhar a sua beleza.
É ela que deixo aqui. Publicada noutro sítio, ou melhor..exibida noutro sítio, não fosse ela uma pérola fulgurante de beleza. Julgo que o dono do sítio não se importará...
Deixo-a aqui.

O Espelho e a Máscara

“Travada a batalha de Clontarf, em que o Norueguês foi humilhado, o Alto Rei falou com o poeta e disse-lhe:
- As proezas mais claras perdem o brilho se não forem cunhadas em palavras. Quero que cantes a minha vitória e o meu louvor. Serei Eneias e tu o meu Virgílio.
Julgas-te capaz de deitar mãos a esta empresa que a nós dois fará imortais?
- Julgo que sim, Rei - disse o poeta.
- Sou o Ollan. Durante doze Invernos cursei as disciplinas da métrica. De memória sei as trezentas e sessenta fábulas que são a base da verdadeira poesia. Os ciclos de Ulster e Munster estão nas cordas da minha harpa. As leis autorizam-me a prodigalizar as vozes mais arcaicas do idioma, e as mais complicadas metáforas. Domino a escrita secreta que defende a nossa arte do exame indiscreto do vulgo. Posso celebrar os amores, os roubos de gado, as navegações, as guerras. Conheço as linhagens mitológicas de todas as casas reais da Irlanda. Domino as virtudes das ervas, a astrologia judiciária, as matemáticas e o direito canónico. Num certame público derrotei os meus rivais. Adestrei-me na sátira que produz enfermidades na pele, incluindo a lepra. Sei manejar a espada, como provei na tua batalha. Só uma coisa ignoro: a forma de agradecer a honra que me dás.

O Rei, que facilmente se cansava com discursos compridos e alheios, disse aliviado:
- Estou farto de saber essas coisas. Acabam de afirmar-me que o rouxinol já cantou na Inglaterra. Quando passarem as chuvas e neves, quando o rouxinol regressar das suas terras do Sul, hás-de recitar o teu louvor perante a corte e o Colégio dos poetas. Dou-te um ano inteiro. Vais limar cada letra e cada palavra. A recompensa, já sabes, não será indigna da minha tradição real nem das tuas inspiradas vigílias.
- Rei, a melhor recompensa é ver o teu rosto - disse o poeta que também era um cortesão.
Fez as suas reverências e saiu a entrever, já, alguns versos.
Cumprido o prazo, que foi de epidemias e rebeliões, apresentou o panegírico.
Declarou-o com segurança lenta, sem deitar uma olhadela, sequer, ao manuscrito.
O Rei ia aprovando com a cabeça. Todos lhe imitavam o gesto, mesmo os que se aglomeravam nas portas e nem uma palavra decifravam.

Por fim o Rei falou.
- Aceito o teu trabalho. É outra vitória. Usaste cada vocábulo na sua acepção genuína e cada substantivo segundo o epíteto que os primeiros poetas lhe deram. Em todo o louvor não há uma única imagem que os clássicos não tenham usado. A guerra é o formoso tecido de homens e a água da espada é o sangue. O mar tem um deus próprio e as nuvens predizem o porvir. Manejaste com destreza a rima, a assonância, as quantidades, os artifícios da douta retórica, a sábia alteração da métrica. Se a literatura da Irlanda se perdesse toda - omen absit - permitiria a tua ode clássica reconstituí-la sem nenhuma falta. Trinta escribas vão transcrevê-la doze vezes.
Fez-se um silêncio e prosseguiu:

- Tudo está bem, apesar de não ter acontecido nada. O sangue não corre mais depressa nos pulsos. As mãos não se agarraram aos arcos. Ninguém empalideceu. Ninguém deu um grito de guerra ou expôs o seu peito aos Vikings. No prazo de um ano, poeta, havemos de aplaudir outro louvor. Em sinal da nossa aprovação toma este espelho, que é de prata.

- Dou graças e compreendo - disse o poeta.

As estrelas do céu retomaram o seu claro curso. Nos matagais saxónicos o rouxinol cantou de novo e o poeta voltou com o seu códice, menos comprido do que o anterior.
Não o repetiu de memória; leu-o com visível insegurança, omitindo certas passagens como se não entendesse nada delas, ou não quisesse profaná-las. A página era estranha. Não se tratava de uma descrição da batalha, era a batalha. Na sua desordem bélica agitava-se o Deus que é Três e Um, os numes pagãos da Irlanda e os que iriam guerrear, centenas de anos depois, no princípio da Edda maior. A forma não era menos curiosa. Um substantivo singular podia concordar com um verbo no plural. As preposições eram alheias às normas comuns. A aspereza alternava com a doçura. As metáforas eram arbitrárias, ou assim pareciam.

Trocando o Rei algumas palavras com os homens de letras que o rodeavam, falou desta forma:
- Do teu primeiro louvor pude afirmar que era um feliz resumo de tudo o que a Irlanda já cantara. Este supera o que ficou para trás e também o aniquila. Suspende, maravilha e deslumbra. Não vão merecê-lo os ignaros mas sim os doutos, os raros. A custódia do exemplar único será um cofre de marfim. Da pena que produziu obra tão eminente podemos, todavia, esperar outra mais alta.Com um sorriso acrescentou:

- Somos figuras de uma fábula e justo é recordar que nas fábulas domina o número três.
O poeta atreveu-se a murmurar:
- As três graças dos feiticeiros, as tríades e a indubitável Trindade.
Prosseguiu o Rei:
- Como prémio da nossa aprovação, toma lá esta máscara de ouro.
- Dou graças e compreendo - disse o poeta.

Mais um aniversário passou e as sentinelas do palácio avisaram que o poeta aparecia sem nenhum manuscrito. Com algum espanto, o Rei olhou para ele; era quase outro.
Qualquer coisa que não o tempo sulcara-lhe e transformara-lhe as feições. Os seus olhos pareciam ver muito longe, ou ter cegado. O poeta pediu para trocar com ele algumas palavras. Os escravos abandonaram a câmara.

- Não fizeste a ode? - perguntou o Rei.
- Fiz - disse com tristeza o poeta.
- Oxalá Cristo Nosso Senhor mo tivesse proibido.
- Podes repeti-la?
- Não me atrevo.
- Dou-te a quantia que precisas - declarou o Rei.
O poeta disse o poema. Era de uma só linha.
Sem conseguir pronunciá-lo em voz alta, o poeta e o seu Rei saborearam-no como uma oração secreta, ou uma blasfémia. O Rei não estava menos maravilhado e atribulado do que o outro. Olharam-se, muito pálidos.

- Nos anos da minha juventude - disse o Rei - pus-me a navegar rumo ao ocaso. Numa ilha vi lebréus de prata que matavam javalis de ouro. Noutra alimentámo-nos com o aroma de maçãs mágicas. Noutra vi muralhas de fogo. Na mais afastada de todas sulcava o céu um rio em abóbada e declive cujas águas abundavam de peixes e barcos. Isto são maravilhas mas não se comparam com o teu poema que as contém todas, pode dizer-se.
Que feitiço to concedeu?

- Acordei de madrugada a proferir palavras que ao princípio não compreendi - disse o poeta. - Essas palavras eram um poema. Senti que tinha cometido um pecado, talvez aquele que o Espírito não perdoa.
- Aquele que compartilhamos agora - murmurou o Rei.
- O de termos conhecido a Beleza, que é um dom vedado aos homens. Cabe-nos expiá-lo.
Dei-te um espelho e uma máscara de ouro; tenho aqui a terceira prenda, que é a última.
Na mão direita pôs-lhe uma adaga.

Do poeta sabemos que se matou, quando saiu do palácio; do Rei que é mendigo e corre os caminhos da Irlanda, seu reino de outrora, sem ter voltado a repetir o poema.

”O Espelho e a Máscara, in O Livro de Areia, de Jorge Luís Borges.

23 outubro 2005

Mandela

Às famosos leis de Murphy e ao velho axioma "errar é humano" pode acrescentar-se que para
estragar mesmo as coisas é preciso um computador, pelo menos para gentinha como eu que não
tenciona candidatar-se a nenhum Nobel da literatura. Isto a propósito das palavras lidas e
escritas directamente no computador. E isto vem a propósito de quê? Das palavras. Dos livros que ando a ler, sem computador. Do prazer de sentir na mão o papel, cheirá-lo, apalpá-lo, afagá-lo num êxtase. Não é que não seja adepta destas tecnologias, sou e muito. A internet, que anda a ferro e fogo qual Julieta, com os Romeus perfilados pela sua posse, os EUA e a Europa, é um caso sério nas nossas preferências lúdicas e não só. Nossas, minhas, quero eu dizer. Quanto à tua, não sei. Mas este assunto há-de ficar tudo para outro dia e outro lugar. Pois é, não devia ter
começado a falar nisto antes de me informar exaustivamente, mas uma vez não são vezes e
errar é humano.

Hoje é Nelson Mandela, e o seu belissimo livro, "Longo Caminho para a Liberdade".

19 outubro 2005

Peter´s


Um dia, no Faial. Domingo à tarde quando a cidade adormece. Ouvia-se o mar a jingar na areia e ao longe a neblina do canal entorpecia-nos de espanto. Não sei como é hoje a cidade mas suspeito que pouco mudou desde então. Vão para aí uns dez anos quando lá fui pela terceira vez. Estava beirando a marina, lendo as mensagens de desconhecidos marinheiros e bebendo o gin
tónico do Peter. A cidade, essa, emigrava para os cantos verdejantes. Ao meu lado, um homem e uma mulher. Fotografei-os numa máquina que me tinham emprestado e ainda estão aqui. Enviei a foto dois meses depois, e nunca obtive resposta. As vozes deles ainda me soam, às vezes.

Como agora, em O Jardim do Eden, de Ernest Hemingway.

- Em que estás a pensar?
- Em nada.
- Tens de estar a pensar em alguma coisa.
- Estava só a sentir-me.
- Como?
- Feliz.
- Mas eu fico tão esfomeada. Achas que é normal? Ficamos sempre tão esfomeados quando
fazemos amor?
- Quando amamos alguém.
- Oh, percebes muito disso.
- Não.
- Não interessa. Adoro isto e não temos que nos preocupar com nada, pois não?
- Não.
- Que vamos fazer?
- Não sei. E tu?
- Tanto se me dá.


No dia seguinte dei a última sessão, sem powerpoint. Ainda decorriam as festas do Espírito
Santo quando me vim embora com paragem na Terceira.

17 outubro 2005

Je t'aime... moi non plus...




Yo pronuncio tu nombre
en las noches oscuras,
cuando vienen los astros
a beber en la luna
y duermen los ramajes
de las frondas ocultas.
Y yo me siento hueco
de pasión y de música.
Loco reloj que canta
muertas horas antiguas.

Yo pronuncio tu nombre,
en esta noche oscura,
y tu nombre me suena
más lejano que nunca.
Más lejano que todas las estrellas
y más doliente que la mansa lluvia.

Te querré como entonces
alguna vez? Que culpa
tiene mí corazón?

Si la niebla se esfuma,
qué otra pasión me espera?
Será tranquila y pura?
Si mis dedos pudieron
deshojar a la luna!!



Federico García Lorca